Mês: julho 2018

Novos aliados, novos Verge

Enquanto meus olhos se abriam lentamente e minha vista se restabelecia, encontrei me em uma sala enorme, sob cobertores feitos da melhor lã. A decoração era meticulosa e cada pequeno componente do ambiente era adornado da forma mais bela. Apesar do tecido e de todas as tochas, ainda sentia um pouco de frio. Não distante da cama onde estava deitado há uma janela e o por do sol em frente a ela revelava um vulto majestoso. Uma figura realmente larga, provavelmente o maior leão que já pude ver. Ele está de frente para o sol e sua capa vermelha com ombreiras e armadura fariam qualquer inimigo pensar duas vezes antes de atacá-lo, mesmo considerando que os anos não tem sido bons para ele. Seu pelo e juba são completamente brancos. Albano! O rei!

“Descanse tranquilo. Você está seguro agora.” – Disse ele com uma voz firme. “Se não fosse por seu amigo você poderia ter sido gravemente ferido. Não é sábio vir a Mithaurian sem ser anunciado, especialmente portando uma arma mágica. Magia não tem sido bem vinda por aqui a séculos.”

Amigo? Arma Mágica? Terei eu batido minha cabeça forte demais? Assim que me viro para o outro lado posso ver uma nova figura. Fisicamente similar a mim. Talvez um pouco maior e mais alto, mas seu semblante é de um descendente dos Verge. Olhos amendoados, queixo proeminente, mãos finas e dedos longos. Mas nunca o vi antes. Não nos arredores da biblioteca ou do templo central pelo menos.

“Deixe que eu me apresente, caro Nettor. Eu sou Hertanyth. Desperto pela magia assim como você foi. Minhas primeiras revelações devem ter acontecido algum tempo antes das suas. A primeira vez que aconteceu eu estava fugindo de Craftsmir logo antes da grande erupção. As águas estavam voando em direção ao norte com pressa e eu achei que algo ruim estava para acontecer. Então decidi correr. O terremoto já tinha começado e eu fiquei preso em um buraco após perder minha montaria. Por sorte, o caminho pelo subsolo que foi revelado a mim permitiu que eu saísse alguns quilômetros à frente e eu fui capaz de voltar para minha jangada e chegar às praias salgadas entre Agadeera e Spellenrune. Mas dentro do buraco havia um estranho brilho em meio às fendas. Em um momento de puro instinto eu me senti atraido àquilo. Peguei alguns escombros que permeavam a pedra brilhante e a atingi diversas vezes. Fui capaz de recuperar um pequeno fragmento, que agora está em posse da alta cúpula de Albano. Mas como o guardei escondido em minha túnica durante minha viagem por barco, aquilo começou a fundir sua energia com a minha e os sonhos começaram. Muito incertos no começo, mas depois de um tempo eu pude ver um exército de heróis lendários dos nossos contos de fadas em combate! Vários eram nada além de vultos, mas um em particular parecia chamar por mim. Um gigantesco Rinoceronte! Pode acreditar? Desde então, penso que a única pessoa viva que pode me ajudar a invocar estes heróis seria Nettor, o último decendente de Malthus! Então eu comecei a vagar pelos arredores do templo e foi apenas uma questão de tempo até você se esgueirar pela noite para as fronteiras de Spellenrune. Você entregou uma cópia de suas anotações a um mendigo, e não demorou muito para que ele as jogasse fora. Imaginei que você não conseguiria trilhar pela floresta facilmente então decidi ajudá-lo com isso. Como um mercador dono do próprio negócio, já estive nessas matas uma dúzia de vezes.

“Chega de formalidades, há muito que temos a discutir. Se você já consegue se levantar, Nettor, por favor junte-se a nós em uma caminhada.Há algo muito intrigante que devem ver.” – Disso Albano.

Uma jornada ruim para bibliotecários

Deixo Spellenrune pela primeira vez. Quando minha ausência for finalmente notada, já devo estar longe. Tudo que carrego é um mapa, uma algibeira com algumas esmeraldas e suprimentos para quatro dias de viagem a pé, juntamente com uma adaga que acredita-se ter pertencido ao próprio Malthus. Há algo gravado nela, mas ainda indecifrado. Uma linguagem rúnica antiga. O conhecimento sobre o significado destes símbolos foi varrido do mundo séculos atrás. Isto é a única herança que tenho.

Assim que me aproximo da fronteira, conversei com um grupo de fazendeiros e ouvi que o Rei Albano está preocupado além de seus limites com os eventos recentes. Ele teme que Mithaurian seja a última defesa do reino em Myridian, mas que está destinada à cair. Ele tem procurado respostas em seu alto conselho, mas eles estão tão desesperados quanto ele.

Mithaurian fica entre Spellenrune e Technokrest. Uma terra de guerreiros que separam o antigo do novo. Pretendo ficar uma noite lá para colher informações e conseguir montaria para que minha jornada continue no dia seguinte.

Algumas mudanças são notadas ao cruzar a fronteira. Pelo menos nas primeiras impressões. Os campos verdejantes de Mithaurian relembram o lugar onde cresci, um lugar distante em Spellenrune. A natureza é abundante e poucas construções estão a vista. Porém após me afastar da fronteira, ao invés de atravessar caminhos através de grandes bibliotecas e igrejas tudo que há para ser visto são arbustos densos e árvores. A luz de nossos três sóis parece desaparecer na escuridão. Se ao menos eu conseguisse lançar uma magia de iluminação… Este é o porque Mithaurian é conhecida por ser praticamente impenetrável! Toda vez alguém de outra civilização precisa entrar em Mithaurian um guia era encontrado na fronteira para mostrar o caminho. Talvez não tenha sido uma idéia tão boa vir sem ser anunciado. A floresta é escura e úmida e dá a impressão de que olhos espreitam cada movimento meu.

Eles não me incomodam, exceto por um par que parece estar em todos os lugares onde vou. As vezes muda de direção, como se tentasse me fazer mudar de caminho. Definitivamente não é uma criatura da floresta. Move-se rápido e nunca me deixa aproximar. Eu não tenho chances de sobreviver a um combate contra um agressor. Os Verge nunca foram guerreiros. Pelo menos, sendo aquela coisa o que fosse, manteve distância de mim por todo o caminho. Está me levando de alguma forma para a saída ou para uma armadilha… Observando de perto mas nunca muito perto.

Assim que terminei meu caminho para fora da floresta, são e salvo para minha surpresa, um soldado em patrulha gritou à distância perguntando quem eu era e quais eram meus assuntos em Mirhaurian, afinal as fronteiras estavam fechadas como medidas de segurança em tempos de guerra. Ele se aproximou enquanto comecei a falar. Mas após vislumbrar minha adaga presa ao cinto ele rapidamente sacou uma zarabatana e um dardo atingiu meu pescoço. Minha visão ficou borrada e confusão é tudo que há para se lembrar. E uma voz. Vinda da floresta. Aqueles olhos que me observavam lá atrás. “Seu tolo! Cesse seu ataque! Este é Nettor! Descend…”

Devo partir – Decidindo ir em frente

Minha incursão aos subúrbios de Spellenrune foi bem recompensada. Não apenas encontrei um lugar muito aquém do esperado em termos de perigo, mas também descobri que vários fatos sobre a guerra foram ocultados de nós.

Aparentemente a devastação não foi causada por apenas pelos Merids. Eles apenas recorreram à guerra por se sentirem ameaçados por ondas de ataques vindos de fontes desconhecidas. Declarar guerra a outros territórios foi um ato de autopreservação pois nenhuma civilização reconheceu ter ordenado os ataques.

Fora este fato, outra descoberta inestimável foi que atividades sísmicas constantes trouxeram substâncias à superfície que nunca foram vistas por outro ser vivo. Fissuras nas rochas e restos de atividade vulcânica parecem ter revelado tipos de toxinas, fluidos e minerais nunca antes registrados. Technokrest enviou seus drones para explorar áreas devastadas mas todos eles se quebraram conforme se aproximavam de seus alvos. Dizem que há um tipo de radiação que se comporta como um PEM, e Merids não podem se aproximar desses locais, mesmo que bem equipados, devido ao excesso de fumaças tóxicas.

A incrível proeza foi quando engenheiros de Technokrest conseguiram sacrificar um satélite de baixa altitude para colher informações. Eles reverteram os propulsores, o trouxeram abaixo a toda velocidade com todos os sensores ligados e antes de perderem comunicação o satélite enviou uma imagem do que parecia ser um mineral luminoso emanando das rachaduras no chão.

Permanecer em Spellenrune por mais tempo seria uma perda de tempo agora que todas as questões apontam para Technokrest. Distribuí centenas de cópias do meu Diário. Rezo para outros os encontrarem e seguirem meu caminho. Para Technokrest!

Outros devem ter despertado – As pistas escondidas nos folhetos

Hoje começo a procurar por outros como eu. É certo que ao menos alguns deles devem ter despertado. Descendentes dos Verge. Minha mente é constantemente invadida por sentimentos de angústia, confusão e medo. Ao mesmo tempo, vozes distantes murmuram palavras que não consigo ouvir com clareza, mas sinto a urgência de um encontro. Elas tentam se aproximar de mim enquanto eu tento entendê-las. Porém, uma vez que começo a prestar atenção na mensagem ela parece se dissipar pois meu foco agora faz minha energia interna circular mais rápido. Minhas mãos queimam como se fossem feitas de pura eletricidade. Meus pensamentos se dispersam e meu cérebro se torna uma tela em branco pronta para dar forma a esses novos poderes que mal comecei a entender.

Ao meu alcance há um pergaminho. Uma magia simplória que nunca tive capacidade de executar. Gerar uma fagulha forte o bastante para acender uma vela com pavio embebido em absinto. Me concentro e realizo os gestos e palavras. Meus dedos ficam dormentes e a cor da sala parece mudar para tons mais iluminados. Eu miro o pavio. Minha energia começa a ser drenada e me sinto tonto. Preciso parar antes de perder minha consciência. Outro fracasso. Mas algo diferente aconteceu. O ar está repleto de uma fragrância desconhecida a mim, mas imediatamente senti aroma de enxofre. Apenas magia pode produzir este cheiro, então a Magia deve estar retornando a Myridian. Haverão perigos à frente, mas as recompensas devem sobrepujá-los. Ela não retornaria a este mundo senão para trazer esperança ao que resta de nossa civilização.

Eu devo escrever minha história em pergaminhos e espreitar as fronteiras de Spellenrune. Locais pouco convidativos a um estudioso como eu com certeza. Condenado pela danação, mas se existir qualquer informação que alguém necessite, aquela região é o melhor lugar para começar a procurar. Uma cópia será entregue a cada indivíduo cuja energia se comunique com a minha. E junto destas cópias deixarei pistas de como me encontrar. Se eu não conseguir retornar a estes registros, que aquele que os encontre continue meu trabalho a partir daqui.

À espreita – As Lendas

Novamente minha noite veio repleta de revelações. Os sinais enevoados tornaram-se mais claros. Agora posso vê-lo com clareza. O Brilho Dourado. Mas ele não está sozinho. Outros se agrupam ao seu redor. Tudo que vejo são sombras. Ainda que com tamanhos e formas diferentes, se equiparam coragem. Portadores de distintas habilidades, enquanto alguns dominam armas de curta distância, outros são capazes de disparar flechas para atingir uma moeda a um quilômetro de distância. Escudos, armaduras, magias, poderes quase sobrenaturais. Donos de uma incrível precisão tática mas ainda assim impetuosos em combate! Um exército nunca antes visto. Um pequeno grupo com estes heróis poderia derrotar toda a milicia de Mithaurian como se nada fosse.

Se alguma das lendas contadas pelos aldeões fosse verdade, é assim que eles se pareceriam! Mas onde encontrá-los e como invocá-los permanece um mistério… a magia se foi. Por toda a vida venho tentando conjurar magias. Qualquer uma. Várias delas estão meticulosamente descritas em nossos pergaminhos, e não importa quão perfeitamente eu execute suas instruções, nada acontece. Falta algo. E esta ampliação de sentidos que tenho sentido durante os últimos dias me diz que estamos chegando perto do que seja isso. Se ao menos eu pudesse me fortalecer, talvez ficar mais sábio…ou…se eu pudesse encontrar alguém como eu, se esse alguém existir…. poderíamos cooperar e juntar forças para encontrar respostas…

Introdução formal de Nettor – A visão de jóias e feitiços

Antes de prosseguirmos sinto que é hora de me apresentar. Sou Nettor, descendente de Malthus, seja lá o que isso for. Pertenço à linhagem dos Verge, e o nome de Malthus parece ser reverenciado entre eles. Nossa raça é escassa e completamente desprezada pela sociedade como um todo. É bem difícil para uma sociedade desenvolvida através da tecnologia absorver o que os Verge têm a oferecer.

Somos vistos como seres místicos. Aqueles que acreditam em magia, pergaminhos, ervas, poções, encantos e coisas assim. Os Verge foram os primeiros senhores de Spellenrune, a cidade mais importante de todos os reinos em um passado distante. Aparentemente nossos ancestrais eram os “cientistas” de seu tempo e levaram desenvolvimento ao mundo através da magia. Foi assim até um ponto na história onde não se tem registro claro. Acreditamos que algum tipo de catástrofe tenha acontecido e desde então a magia desapareceu de alguma forma.

Apenas podemos presumir que os Verge mais poderosos foram exterminados enquanto tentavam combater este evento. Pessoas chamam esse tempo de “O Fim”. Um nome que vive apenas através das lendas contadas entre as pessoas. Nosso planeta pôde ser recuperado através dos avanços tecnológicos de Technokrest. Agora eles são o centro do mundo e um local em potencial para encontrar respostas.

Zombaria e um novo sonho – Visões do passado

“- Como és tolo!”

“- Tens sonhado com o Rei de Mithaurian, Albano Juba-de-Ouro!”

“- Basta de seus devaneios!”

…eles disseram.

Albano… o mais corajoso dentre os leões em Mithaurian. Um soberano poderoso para dias de paz. Quisera eu que ainda fosse o caso. Mesmo no ápice de sua força, décadas atrás, ele não seria páreo para a criatura dos meus sonhos.

Novamente ele me visitou durante meu resguardo. Um vislumbre de uma caverna, um brilho misterioso encoberto por uma densa neblina e ali ele buscava completar seu objetivo. Aparentemente algo deve ser coletado daquele lugar, mas perigos inimagináveis rodeiam todos os que se aventuram a alcançá-lo. Parece tão real para mim.

É algo que deve ter acontecido. Ou acontecerá. Ou algo assim.

Mesmo que tenha lido praticamente todos os tomos desta biblioteca nada encontrei sobre esta criatura e os locais que tenho vislumbrado. Vivendo e trabalhando aqui por mais anos do que seja capaz de contar, percebo que a verdade está em outro lugar. É como se tudo que me é revelado nunca tivesse existido. Ou deve haver uma razão maior para que este poder tenha sido escondido do mundo…

©2018, The Myridian Alliance